Judiciário discute desafios do agro diante de novas demandas jurídicas e tecnológicas

Hodirley Canguçu Imagem aberta da abertura do do I Encontro Estadual do Judiciário e Agronegócio, com o tema “Transformações Jurídicas, Regulatórias e Tecnológicas no Agro: Tendências para a próxima década”

A Escola Superior da Magistratura Tocantinense (Esmat) realizou, na tarde desta quinta-feira (28/5), no auditório do Tribunal de Justiça do Estado do Tocantins (TJTO), a abertura do I Encontro Estadual do Judiciário e Agronegócio, com o tema “Transformações Jurídicas, Regulatórias e Tecnológicas no Agro: Tendências para a próxima década”. A programação reuniu magistrados(as), representantes do Sistema de Justiça, especialistas, autoridades e integrantes do setor produtivo para discutir caminhos de aproximação entre o Judiciário e uma das principais bases econômicas do Tocantins e do país.

A abertura foi marcada por falas voltadas à segurança jurídica, à sustentabilidade e à necessidade de compreensão mais precisa sobre a realidade do campo. O superintendente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Tocantins (FAET), doutor Miller Santana, tratou o encontro como um marco para o Estado, ao reunir instituições chamadas a dialogar sobre os desafios concretos do setor produtivo rural.

Ao ampliar o sentido do agronegócio para além dos grandes empreendimentos, Miller lembrou que a atividade também envolve pequenos e médios produtores, responsáveis por parte expressiva da dinâmica econômica local.

“Quando nós falamos de agronegócio, não falamos apenas dos grandes produtores rurais, mas também dos pequenos e médios produtores”, pontuou.

Na avaliação do diretor geral da Esmat e presidente do Colégio Permanente de Diretores de Escolas Estaduais da Magistratura (Copedem), desembargador Marco Villas Boas, o crescimento do agronegócio no Tocantins exige respostas institucionais capazes de equilibrar produção, proteção ambiental e previsibilidade decisória. Ao relacionar o Estado à fronteira agrícola do Matopiba, ele defendeu que o Poder Judiciário tem papel decisivo na construção de um ambiente produtivo estável.

desembargador Marco Villas Boas fala ao microfone durante evento

“O Poder Judiciário, nesse contexto, tem uma missão que vai além da solução de litígios: cabe-nos assegurar a estabilidade jurídica e a sustentabilidade ambiental para um ambiente produtivo seguro”, afirmou.

O desembargador também associou a realização do encontro e a criação da primeira pós-graduação lato sensu em Direito Empresarial e Agronegócio da Esmat à necessidade de formação técnica para lidar com demandas cada vez mais especializadas.

Representando a presidente do TJTO, desembargadora Maysa Vendramini Rosal, a desembargadora Etelvina Maria Sampaio Felipe situou o agronegócio como uma das forças estruturantes da economia tocantinense. A magistrada ressaltou que o setor movimenta cadeias produtivas, gera receitas, atrai investimentos e conecta o Estado a mercados nacionais e internacionais.

imagem aberta com a desembargadora Etelvina à esquerda falando ao microfone e ao centro o dispositivo de honra do evento

“O agronegócio não representa apenas uma importante atividade econômica do nosso Estado. Ele é uma das forças motrizes do desenvolvimento do Tocantins e do país”, assinalou.

 

Tecnologia, IA e recuperação judicial

O primeiro painel, mediado pelo doutor Rodrigo Bressane, teve como tema “Segurança Jurídica, Transformações Regulatórias e Tecnológicas no Agro”. A discussão reuniu o ministro Afrânio Vilela, do Superior Tribunal de Justiça (STJ); o conselheiro Rodrigo Badaró, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ); e o desembargador Marco Villas Boas.

Ao tratar das transformações tecnológicas no campo, o ministro Afrânio relacionou agricultura de precisão, georreferenciamento, automação operacional, drones e inteligência artificial ao aumento da produtividade, à redução de desperdícios e ao uso mais racional de insumos. Para ele, a inovação já integra a dinâmica do setor produtivo rural e deve ser acompanhada com responsabilidade.

“Este é o futuro tecnológico, devemos compreendê-lo, acompanhá-lo e utilizá-lo, porém, de forma responsável, com cautela, mas sem medo do futuro”, afirmou.

O ministro também abordou os limites éticos da inteligência artificial e defendeu que a tecnologia seja compreendida como ferramenta de cooperação, e não de substituição da consciência humana. No Judiciário e no agronegócio, observou, sua aplicação deve estar vinculada à justiça, à produtividade responsável e ao bem comum.

Na sequência, o conselheiro Rodrigo aproximou o debate da atuação institucional do CNJ, especialmente por meio do Fórum Nacional de Recuperação Empresarial e Falências (Fonaref). Ele afastou a ideia de que o Conselho se limite a uma função normativa, fiscalizatória ou sancionadora, ao apontar a formulação de políticas públicas e a escuta institucional como partes centrais desse trabalho.

“A gente não quer, de forma alguma, atrapalhar o andamento do Judiciário; a gente quer o contrário, dar força para o juiz”, ressaltou.

Para o conselheiro, magistrados(as) que lidam com demandas do agronegócio enfrentam dilemas complexos, nos quais precisam equilibrar preservação da atividade econômica, proteção ao crédito, liberdade econômica, solvabilidade e prevenção de abusos no uso da recuperação judicial.

 

Megatendências do agro

Com mediação da desembargadora Etelvina Maria Sampaio Felipe, a conferência “Megatendências e Perspectivas Futuras do Agronegócio no Brasil” teve como palestrante o ex-ministro do Meio Ambiente Joaquim Leite. A exposição trouxe uma leitura global sobre clima, produção, biodiversidade e competitividade, com atenção aos compromissos ambientais assumidos por empresas, bancos e governos nos últimos anos. Joaquim defendeu que a busca pela neutralidade climática e pela proteção da biodiversidade precisa ser construída com tecnologia, segurança econômica e metas alcançáveis.

“Tem que ser uma coisa racional, que não seja algo impossível de fazer”, ponderou.

O ex-ministro apresentou o Brasil como uma potência ambiental e produtiva, ao reunir floresta nativa, biodiversidade, disponibilidade de água doce, radiação solar, ventos constantes, agricultura tropical, extensa área marinha e matriz energética renovável. Também associou bioeconomia, ciência e agricultura à próxima fronteira de inovação do setor, especialmente em pesquisas voltadas à fixação de carbono no solo e à fixação biológica de nitrogênio.

 

Homenagem

A programação também contou com a outorga da Medalha do Mérito Acadêmico “Doutor Feliciano Machado Braga”, concedida pela Esmat a personalidades que contribuíram para o fortalecimento do ensino jurídico, da produção científica e do aperfeiçoamento da prestação jurisdicional no âmbito do Poder Judiciário brasileiro.

A entrega da honraria foi realizada pelo diretor geral da Esmat e presidente do Copedem, desembargador Marco Villas Boas. Foram homenageados o ministro Afrânio Vilela; o conselheiro Rodrigo Badaró; e o membro do Conselho Jurídico e da Comissão Nacional do Meio Ambiente, doutor Rodrigo Bressane.

O encontro segue nesta sexta-feira (29/5), com painéis sobre recuperação judicial e reestruturação de empresas do agronegócio; contratos agrários, garantias verdes e segurança jurídica.


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