Socioeducandos transformam recepção do Case de Palmas em espaço de esperança

Lucas Nascimento Adolescente em cumprimento de medida socioeducativa participa da pintura do mural que transforma a recepção do Case de Palmas. A obra, produzida coletivamente, traz elementos que simbolizam sonhos, futuro e novas perspectivas para os jovens atendidos pela unidade.

A recepção do Centro de Atendimento Socioeducativo (Case) de Palmas ganhou novas cores e significados. Sete adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa participaram da criação de um mural artístico que agora acolhe quem chega à unidade. A iniciativa integra o projeto Caminhos Literários e fará parte da jornada cultural promovida pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), marcada para os dias 2, 3, 7 e 8 de julho.

Neste ano, o projeto tem como tema “Resistir em batida, verso, corpo e traço” e coloca o hip hop no centro da programação.

No Case, além de uma intervenção artística, a pintura se tornou um espaço de expressão e reflexão de perspectivas para o futuro. Desenvolvido dentro de um projeto de extensão da Universidade Federal do Tocantins (UFT), o trabalho envolveu estudantes do curso de Arquitetura e Urbanismo e adolescentes atendidos pelo Case, que atualmente abriga 19 socioeducandos.

Quem entra na unidade encontra um cenário repleto de elementos que remetem à infância, ao pertencimento e à esperança. Pipas, futebol, o lago, a serra e o sol de Palmas compõem a obra, construída a partir das vivências e percepções dos próprios adolescentes.

Adolescente em cumprimento de medida socioeducativa participa da pintura do mural que transforma a recepção do Case de Palmas

Para um dos socioeducandos participantes, de 14 anos, a experiência deixou marcas.

“Essa pintura representa várias coisas, mas o que inspira mesmo é a vida que a gente tem que viver lá fora. A gente não pode desistir de nada”, contou.

Próximo de concluir sua medida socioeducativa, o adolescente acredita que o mural permanecerá como lembrança de um período de aprendizado e transformação.

 

Memórias e futuro

A estudante de Arquitetura e Urbanismo da UFT e artista de grafite Mariana Castro conduziu a criação do painel ao lado dos adolescentes. Segundo ela, a proposta buscou resgatar referências afetivas presentes na trajetória de cada participante. “A ideia surgiu a partir da convivência com os meninos. Quis trazer elementos que lembrassem a criança interior que existe em cada um deles, como empinar pipa e jogar futebol. São memórias que remetem à tranquilidade e à alegria”, explicou.

Adolescentes e estudantes da Universidade Federal do Tocantins preparam tintas e materiais utilizados na produção do mural artístico do projeto Caminhos Literários, desenvolvido no Case de Palmas.

As cores e os símbolos também carregam significados. Segundo a estudante, o verde representa a serra; o azul faz referência ao lago de Palmas; e um dos personagens retratados veste uma camisa com a palavra “futuro”, olhando para o céu tomado por pipas.

Para Mariana, a arte também funciona como instrumento de transformação social. “Eu tive oportunidade de estudar e construir minha trajetória por meio do grafite. Mostrar isso para eles é importante, porque ajuda a enxergar que outros caminhos também são possíveis.”

 

Conhecimento e cidadania

A coordenadora do projeto e professora da UFT, Patrícia Orfila, destaca que a ação faz parte de um projeto de extensão universitária voltado à aproximação entre universidade e comunidade.

Segundo ela, desde dezembro de 2025, estudantes e professores participam de encontros com os adolescentes para discutir temas ligados à cidadania, ao direito à cidade e ao pertencimento social. Além das atividades no Case, os participantes conheceram espaços públicos de Palmas e tiveram contato com aspectos históricos e culturais da Capital.

Segundo a professora, o objetivo é ampliar horizontes e fortalecer vínculos com a educação. “A arquitetura e o urbanismo também trabalham cidadania, acesso à cidade e inclusão. Queremos que esses adolescentes se reconheçam como sujeitos de direitos e percebam que a universidade é um espaço que também pertence a eles.”

O projeto será encerrado no próximo dia 24 de junho, com uma visita dos adolescentes à UFT, onde conhecerão laboratórios, espaços acadêmicos e atividades culturais.

 

Direito e ferramenta de transformação

Para o juiz coordenador do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário de Execução de Medidas Socioeducativas (GMF) do Tribunal de Justiça do Tocantins, Eustáquio de Melo Júnior, iniciativas culturais desempenham papel fundamental no processo socioeducativo. Segundo o magistrado, a Constituição Federal assegura a crianças e adolescentes proteção integral e prioridade absoluta, o que inclui o acesso à cultura como direito fundamental.

“O percurso socioeducativo precisa ser essencialmente pedagógico, garantindo acesso a direitos básicos, entre eles o direito à cultura.”

O juiz ressalta que a Jornada de Cultura do CNJ, vinculada ao projeto Caminhos Literários, busca consolidar uma política cultural que reconheça adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas como protagonistas de suas histórias. “O acesso à cultura deixa de ser tratado como mero passatempo ou privilégio por bom comportamento e passa a ser cobrado pelo Judiciário como um direito pedagógico obrigatório, estruturante para o plano de desenvolvimento individual de cada adolescente”, afirmou.


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